O jornalista tem um papel extremamente importante na sociedade, o de transmitir informações e, assim, influenciar a formação da opinião pública. Não é à toa que Michel Serres compara a função do jornalista com a dos anjos e com a do deus Hermes. Segundo o autor, os anjos são portadores de mensagens e conectam o local ao global, o que, de fato, é o mesmo que os jornalista faz. Hermes, por sua vez, é um deus mensageiro que traz, aos homens, a comunicação dos deuses. Ele tem inúmeras faces e se adequa à tarefa de tornar o conhecimento uno e múltiplo, global e local. É um deus que possui uma capacidade de adaptação gigantesca e, por esse e tantos outros motivos, assemelha-se também ao jornalista.
Tanto Hermes quanto os anjos devem, entre outras funções, entregar mensagens do divino às pessoas e, nesse aspecto, é isso o que o jornalista também deve fazer. Obviamente, o jornalista não possui um papel tão abstrato quanto esses personagens, mas sua função, de fato, corresponde à de um mensageiro da sociedade. O jornalista tem como principal objetivo revelar às pessoas aquilo que não é mostrado, desmascarar sujeitos, investigar fatos e, assim, auxiliar a população a enxergar aquilo que ela não enxergaria sem ajuda.
É nesse aspecto que o jornalista é exatamente aquilo que Giorgio Agamben descreve, entre outras definições, como “contemporâneo”: “Pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e aprender o seu tempo”. O jornalista é um contemporâneo na medida em que mantém fixo o olhar não só naquilo que é bom na sociedade, mas nas ranhuras, nos erros, naquilo que é ruim e que está presente em todas as relações do ser humano.
O jornalista é justamente quem tem o dever de ajudar as pessoas a serem contemporâneas de seu tempo, criticando o que acontece e tentando entender os processos que formam a sociedade. Contudo, isso nem sempre acontece.
Hoje, o que se pode perceber é que a função do jornalista está completamente distorcida: se antes seu objetivo era ajudar a sociedade a entender o que está acontecendo e agrupar depoimentos que ajudassem a compor uma crítica decente, hoje o profissional jornalista atua de um jeito completamente diferente. É ele quem mascara os erros e roubos, é ele quem cria uma situação a fim de proteger pessoas que possuem poder e empresas gigantescas. Ele não ajuda a revelar, mas sim, ajuda a esconder.
Um grande exemplo desta distorção da função do jornalista está muito bem representado no filme A Gardênia Azul, de Fritz Lang. Este filme, que foi analisado por Stella Senra em “O Último Jornalista”, conta a história de uma moça que é acusada, por um grande jornal, de ter assassinado um homem. E o poder deste jornal acaba sendo tão influente, que ela mesma não sabe dizer o que houve na noite em que o homem foi assassinado. Ela acaba desconfiando de si mesma.
Em seu texto, Stella Senra afirma que “a escrita jornalística funciona como um poderoso sistema de iluminação voltado para o conjunto da sociedade”, ou seja, é a escrita jornalística a responsável por iluminar – no sentido Iluminista de “esclarecer” – a sociedade. E, nesse sentido, a escrita jornalística é panóptica, ou seja, possui uma visão total sobre tudo o que acontece em volta dela e, talvez por isso, seja tão poderosa.
No filme A Gardênia Azul, a escrita jornalística possui um dos principais papéis, já que é quem torna pública a vida pessoal de Norah, é quem a nomeia assassina e a exclui da sociedade – mesmo que ela não tenha, realmente, cometido o crime.
Desse modo, o objetivo do filme é justamente mostrar o poder de persuasão que a imprensa possui em relação às pessoas. Aqui no Brasil, por exemplo, muitos dizem que foi a imprensa, mais especificamente a TV Globo, que colocou Fernando Collor no poder e depois o tirou de lá. E hoje em dia, não é diferente. As grandes emissoras de televisão e rádio e os grandes jornais brasileiros sabem o poder que possuem em uma sociedade acrítica e acomodada, que fica indignada, mas não sai do sofá.
A única diferença é que, atualmente, existe a internet, que possibilita que os grandes conglomerados midiáticos sejam desmascarados, vez ou outra. Hoje, muitas pessoas, inclusive jornalistas, possuem blogs para dizer exatamente o que quiserem sem serem censurados. E estes blogs, na maioria das vezes, possuem um público tão fiel – ou até mais – quanto os grandes jornais, canais de televisão ou programas de rádio.
Nesse sentido, talvez seja possível afirmar que a internet agora é que tem a função de ser contemporânea ao seu tempo. Como a liberdade dentro dela é enorme e o jornalismo tradicional se perdeu no meio de brigas entre poderes políticos e financeiros, talvez a internet – ou os blogueiros, mais especificamente – esteja tomando o posto do jornalista, na medida em que ela que, agora, enxerga os males da sociedade e introduz, na opinião pública, críticas fundamentadas que o jornalismo tradicional praticamente deixou de introduzir.

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