14 de junho de 2011

O poder e a resistência da sociedade civil

Vivemos em uma sociedade governada pelo Neoliberalismo, em que os valores mais importantes e realmente humanos foram completamente esquecidos. As pessoas se tornaram meros objetos de algo muito maior, o mercado, e as grandes corporações ganharam vozes e poder. Hoje, não há mais empresários, como existiam antigamente, há somente empresas, sem donos, funcionando através de uma grande marca e governando tudo o que veem pela frente.

Na década de 90, dois movimentos surgiram na sociedade: o Zapatismo e a Batalha de Seattle. O primeiro, de 1994, queria o fim do poder. O segundo, por sua vez, de 1999, era contra as grandes corporações e o caráter aniquilador do mercado.

O Zapatismo foi iniciado pelo subcomandante Marcos em Chiapas e era contra a globalização neoliberal. Seu objetivo nada mais era do que destruir a rede de dominação até o fim, possibilitando a criação de uma sociedade igualitária em que o peso do governo recaísse sobre os ombros de todos e não sobre uma pessoa só. O Zapatismo queria o fim do poder, mas por não possuir um discurso de guerra, recebia inúmeras críticas por parte da “esquerda radical”.

O movimento, através dos sistemas de comunicação – principalmente da internet – conseguiu apoio de muitas pessoas no mundo, inclusive da própria sociedade mexicana. Ela, em uma marcha no dia 12 de janeiro de 1994, pediu aos zapatistas para lutarem em conjunto pelo fim da exploração neoliberal, sem violência. E seu pedido foi recebido. O governo mexicano, contudo, respondeu violentamente ao movimento, chegando, inclusive, a bombardear a zona de levante zapatista.

O subcomandante Marcos tinha como principal objetivo politizar e intensificar as teias de comunicação. Ao contrário de outros movimentos de esquerda, que apenas procuravam jornalistas para divulgar seu trabalho e seu projeto, o movimento zapatista usava a internet como meio de divulgação de seus próprios programas. E, por causa disso, diversos encontros contra o Neoliberalismo e a globalização passaram a ocorrer no mundo, até mesmo nos Estados Unidos. A partir deste momento, pela primeira vez a mídia alternativa passou a pautar a grande mídia. As novas informações não eram lançadas ao mundo pela grande imprensa, que só se preocupava em atacar o Zapatismo, mas sim pela pequena mídia.

Battle in Seattle, 2007

A Batalha de Seattle, que aconteceu nos Estados Unidos em 1999, também utilizou a internet para se organizar. Ao contrário do Zapatismo, contudo, ela não era exatamente contra o poder, mas sim contra as corporações destruidoras dos ecossistemas e das relações humanas. Na realidade, esse novo movimento opunha-se à ideia de que o que é bom para os negócios – menos regulamentação, mais mobilidade, mais acesso – resultará em consequências boas para o mundo; ideia que permanece até hoje, aliás.

Os manifestantes eram antiglobalização porque lutavam a favor dos direitos trabalhistas, da proteção ambiental e da democracia. Portanto, não eram contra a globalização em si, mas contra o crescimento desenfreado, sem limites e leis, do comércio.

Na época, a Batalha de Seattle organizou-se de tal maneira que conseguiu cancelar a reunião da OMC (Organização Mundial do Comércio) que aconteceria na cidade. De fato, como afirmou o sociólogo francês Edgar Morin, este movimento foi a primeira insurreição midiática do século XXI, na medida em que conseguiu, além do cancelamento da reunião, mudar a pauta em vigor na grande mídia. Se antes era a reunião da OMC que estava em todos os noticiários, imediatamente o movimento passou a ocupar o seu lugar.

Diante deste contexto, começou a circular nos cinco continentes um abaixo-assinado via internet contra estas reuniões, o que permitiu o contato do movimento com pessoas de várias regiões do planeta. Seu foco – as corporações e seu impacto no mundo – aliado à comunicação online, fez com que o movimento se tornasse rapidamente internacional, com pessoas, inclusive, viajando a Seattle para se unirem às manifestações. Assim como no movimento zapatista, neste caso, a internet e a comunicação também foram grandes aliadas.

O que acontece desde sempre é que a grande mídia desqualifica os movimentos sociais, o que nos leva a crer que a imprensa, ao contrário do que dizem, não é antipoder, mas, sim, a favor do poder. Hoje, é ela quem controla o que será revelado à população e ela quem protege as pessoas do jeito que achar conveniente. Do mesmo modo, é ela quem culpa inocentes e criminaliza movimentos sociais.

A internet, contudo, permitiu que movimentos contra-hegemônicos surgissem e se manifestassem na atualidade. Foi assim no caso do Zapatismo e da Batalha de Seattle na década de 90, do mesmo jeito que, agora, na segunda década do segundo milênio, algumas manifestações e abaixo-assinados estão sendo divulgados através das redes sociais, principalmente.

Somente este ano, aqui no Brasil, pelo menos duas manifestações foram organizadas através do Facebook: a Marcha da Liberdade, a favor da liberdade de expressão; e o Churrascão da Gente Diferenciada, que reuniu pessoas no bairro do Higienópolis, em São Paulo, contra o preconceito da elite paulistana e a favor da instalação de uma estação de metrô no local.

Dessa mesma maneira, grandes organizações ambientais, como o Greenpeace e o WWF, também estão utilizando as redes e o e-mail para divulgar seus trabalhos e conseguir mais voluntários. Hoje, inclusive, há a Avaaz.org, uma comunidade virtual que tem por objetivo ser uma rede de comunicação entre os Estados e a sociedade civil. Ela cria petições, envia e-mails para os governos, faz telefonemas, organiza protestos e eventos na rua sobre diversos temas, sejam eles ambientais, sociais, sobre direitos humanos ou sobre a produção agrícola.

A tendência, então, é que a tecnologia, especialmente a internet, seja cada vez mais uma ferramenta para a sociedade civil que, cansada de ver o planeta do jeito que está, percebeu no mundo online um jeito de se manifestar. E a mídia alternativa, por sua vez, muito mais transparente, talvez acabe não ocupando o lugar da grande imprensa, mas faça com que ela se preocupe mais com seus noticiários a fim de não perder o seu público fiel.

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