12 de abril de 2011

Do jeito que toda mulher quer

Finalmente chegara o dia. Ela estava se sentindo excessivamente calma, parecia que nada de errado poderia acontecer. De fato, para quem era jovem, casada com um homem rico e bonita, a invencibilidade era quase que certa. Mas não desta vez.

Com 1,68m e apenas 57 kg, Suzana queria porque queria fazer uma lipoaspiração. “Eu pre-ci-so tirar estas gordurinhas da minha coxa e da minha barriga!” – ela dizia quando alguém indagava porque tinha tomado essa decisão tão precipitadamente. Obviamente nenhum médico sério havia aceitado operá-la, então o primeiro que tinha se oferecido para fazer a plástica por uma quantia um pouco maior, Suzana tinha contratado.

A cirurgia iria ocorrer somente daqui 15 dias, mas com seu jeitinho brasileiro (que incluía suborno e alteração no resultado dos exames), Suzana tinha conseguido com que ela fosse feita um pouquinho antes do combinado. E o dia finalmente chegara.

Ela acordou e seguiu sua rotina matinal diária. Tomou um belo banho e foi direto ao espelho olhar seu corpo. “Esta é a última vez que vou ver essa gordurinhas horríveis!” – pensou. – Adeus, barrigona! Adeus, coxas enormes! Vestiu o roupão branco e colocou os sapatos felpudos e confortáveis. Última refeição antes da cirurgia, o que comeria? Panquecas, com certeza. Ela raramente ingeria fritura ou comidas gordurosas, mas já que havia prometido para si que depois da lipo nunca mais comeria algo que a fizesse engordar, achou que desta vez poderia abusar um pouquinho.

Desceu as escadas e foi direto para a cozinha. Para variar, não havia ninguém em casa. O marido estava em alguma viagem de negócios na China... Ou seria no Japão? E os filhos, uma menina de 10 anos chamada Isadora e um menino de 8 anos chamado Anderson, estavam, cada um, em um internato. “Para construir o caráter digno da família Moura”, o padrasto dizia. E esta havia sido a condição para que ele aceitasse criar os filhos de outro homem: que os dois morassem em outro país (que ela não lembrava se era Suécia ou Suíça).

Não havia ninguém que pudesse ir com Suzana ao hospital. Não que ela precisasse, claro, tinha o motorista particular para levá-la, mas na hora que tomasse a anestesia, seria bom ter um rosto familiar por perto. Acabou de tomar o café da manhã que ela mesmo fizera, vestiu-se e partiu para o encontro com a sua felicidade.

O hospital tinha uma atmosfera mórbida e ela não sabia dizer se era por causa do dia ou se sempre fora assim. Passou reto por todos os pacientes moribundos esperando serem atendidos e foi direto à sala de seu médico. Doutor Osnir, dele lembrava-se bem. Careca, só com cabelos grisalhos do lado, óculos redondos e fundo de garrafa. Era baixinho, não muito maior que ela, e sua barriga em forma de melancia aparecia para fora do avental branco. “Jesus, por que este homem não faz uma lipoaspiração em si mesmo?”, pensou enquanto adentrava a sala.

- Bom dia, Suzana! Como está minha linda paciente hoje?
- Estou ótima, doutor! Mal posso esperar para ver o resultado.
- Calma, calma, minha querida, porque o inchaço demora a passar. Mas valerá a pena!
- Com certeza valerá!

Após delimitar tudo o que queria retirar do corpo de Suzana – aquilo que nem existia, diga-se de passagem – o médico pediu a ela que se deitasse na maca. Como ela queria alguém que segurasse sua mão naquele momento! Mas não importava, porque no final tudo sairia bem e ela ficaria mais linda ainda do que já era. Por que não?

Deitou-se e o médico, juntamente com uma das enfermeiras do hospital, empurrou a maca até a sala de operações. O ambiente era horrível, com cheiro forte e as paredes forradas com azulejos azuis. Então, Suzana tomou a anestesia. E última cena que viu antes de apagar foi o rosto do doutor, os olhos castanhos dele focados no seu: “Conta até 10, quando você acordar já vai ter acabado...”

Parecia que ela não havia dormido. Tinha plena consciência do que estava acontecendo, mas não sentia dor e tudo o que via eram luzes amarelas piscando como se fossem dentro de sua cabeça. Podia ouvir tudo o que o médico falava “agora vamos introduzir...” e depois se perdia, divagando sobre toda a sua vida.

Nascera em um bairro bem pobre do Rio de Janeiro e só havia concluído o ensino fundamental. Toda esperteza que possuía era por causa da vida. Aos 17 anos, engravidara de Antônio, um taxista da região. Casaram-se logo depois que Isadora nasceu. Dois anos depois, com a chegada de Anderson, separaram-se. Não dava mais. Batalhadora como sempre, Suzana nunca deixava faltar nada para os pequenos. Foi aí que conheceu Ricardo, o cara rico que ia todas as manhãs correr na praia onde ela vendia bijuterias. Apaixonaram-se, o amor de adolescente que ela nunca tivera, e logo se casaram. Sua vida melhorou muito e ela, finalmente, pôde dar aos filhos tudo o que queria. Desde que ficassem internados em outros países. Um preço pequeno a se pagar pela felicidade das suas crianças.

Retornou ao quarto. O médico parecia agitado e falava com aspereza para a enfermeira. “Estamos perdendo ela, estamos perdendo ela!” Suzana sentia seu corpo mole, mas lutava. Ela era linda, jovem e casada com um homem rico! Já não gostava muito dele, é verdade, mas não abriria mão da sua felicidade por algo tão bobo quanto o amor, por mais que o marido não desse mais tanta atenção a ela. Claro que não.

O doutor não sabia mais o que fazer. Já havia tentado de tudo e não parava de repetir “eu sabia que não deveria ter aceitado esta cirurgia! Que tipo de louca acha que com 57 kg precisa fazer uma lipoaspiração?”. Suzana também não sentia mais vontade de lutar. Seus filhos estariam bem, Ricardo a amava (amava?) e prometera cuidar dos pequenos até que eles tivessem idade para se sustentar sozinhos. Isadora se tornaria uma advogada de sucesso e Anderson um médico bom e decente, não igual a este doutor não. Ele seria psiquiatra! “É, daqueles que cuidam da cabeça de gente doente e obcecada... que nem eu.”

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