Eram quatro horas da manhã, ainda estava escuro. Muito cedo, pensou, mas precisava se levantar. O dia anterior havia sido extremamente longo, a chuva mais uma vez inundara São Paulo e ele ficara durante três horas no mesmo ônibus. Janelas embaçadas, trânsito parado, cansaço... Tudo isso contribuía para que o clima dentro do meio de transporte público ficasse cada vez mais pesado. “Eu só quero chegar em casa!”, ele pensava.
Estava naquele trabalho há cerca de cinco anos e, desde então, sua rotina matinal era a mesma. Acordava, sempre, às quatro horas da manhã. Na realidade, o relógio despertava às 3h55, “para ter cinco minutinhos a mais para dormir”. Levantava, escovava os dentes, jogava água no rosto e entrava no banho cronometrado: nada mais do que 10 minutos, afinal, a energia estava muitíssimo cara. Antes de sair de casa, dava um beijinho na testa da mulher, que dormia profundamente. Sem café da manhã, pois era preciso economizar.
O caminho até o terminal de ônibus tinha cerca de 5 km, mas ele se recusava a usar algum transporte público para ir. Não pagava, de fato, a passagem, mas já que precisava passar o dia todo dentro do ônibus, indo e vindo, agüentando pessoas mal educadas e rabugentas, preferia ir andando até o seu local de trabalho. Com chuva ou com sol, Pretinho – assim que os colegas de trabalho o chamavam – andava, todos os dias, 10 km. Metade para ir, metade para voltar.
Era meio de setembro e a manhã, apesar de ensolarada, estava extremamente fria. Pretinho usava seu uniforme cotidiano: camisa azul clara, calça cinza chumbo e sapatos pretos. Não precisava usar sapato social, mas essa era uma das poucas coisas que ele exigia de si mesmo. “Pra ficar mais chique”, falava, toda vez que alguém perguntava o porquê dos calçados tão desconfortáveis.
Era adorado pelos colegas de trabalho. E pela moça que vendia café e bolo de fubá na frente do terminal. Todos os dias, ela dava para ele uma xícara de café e uma fatia de bolo, mesmo que ele insistisse que não. “Fica tranqüila, Dona Lurdes, eu tive um café da manhã digno de rei em casa”, dizia todas as vezes. E ela sabia que não era verdade, então, falava que imaginava, mas que dessa vez havia mudado a receita do bolo e que ele precisava experimentá-la.
Tinha dado 5h30, o horário em que o primeiro ônibus deveria sair. “Vamos, Toninho, não quero passageiro nenhum reclamando no meu ouvido que o ônibus estava atrasado!”. Todos os dias era assim, Pretinho é quem tinha que lembrar o motorista do horário de saída do ônibus. Se dependesse dele, atrasariam 10, 20, 30 minutos...
O trânsito estava tranqüilo até. Pelo menos para uma cidade tão grande quanto São Paulo. E a Avenida Paulista, para variar, estava gigantesca e imponente. Mesmo depois de anos, ela continuava a encantar Pretinho que, vindo pra cá do interior, nunca tinha visto uma rua tão assustadora e, ao mesmo tempo, bela.
Chegaram ao ponto final, no metrô Vila Mariana, onde pouquíssimas pessoas, normalmente, desciam. Eram 7h30 ainda, o que significava que haviam feito a corrida em exatamente duas horas, um tempo recorde. Pretinho, então, saiu do ônibus, esticou as pernas e foi ao banheiro. Lavou o rosto novamente, espreguiçou-se e dirigiu-se a uma das cabines.
De dentro dela, ouviu um barulho. Alguém tentava abrir sua porta. “Sai daí, homem, você não devia ter se metido comigo!” – a pessoa do lado de fora gritava descontroladamente. Calma, deve ser só mais um bêbado, Pretinho pensava. Mas a barulheira continuava e ele não sabia mais o que fazer.
Foi quando resolveu sair. Abriu a porta e olhou o homem que gritava por ele desesperadamente. De repente, sentiu uma dor alucinante na boca do estômago. O homem carregava uma arma e ao ver que Pretinho havia aberto a porta, resolvera atirar. Três tiros. Um deles, em cheio no estômago do rapaz. Suas pernas cambalearam, a vista escureceu e, enquanto isso, seu sangue se misturou com a água no chão, dando um tom rosado ao piso branco. Seus olhos mostravam confusão e medo. O assassino, contudo, parecia tão confuso quanto ele. “Desculpa! Desculpa, cara, eu achei que você fosse outra pessoa!” – dizia, enquanto saía correndo com medo de que alguém descobrisse o seu erro.
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